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Agradeça aos dinossauros se você gosta de vinho, suco de uva ou das uvas. Ou melhor, agradeça à extinção dos dinossauros. Ela permitiu a proliferação das uvas.

É o que um estudo publicado no periódico Nature Plants no início de julho concluiu.

Tudo se iniciou quando, em 2022, Fabiany Herrera, curadora assistente de paleobotânica do Field Museum no Negaunee Integrative Research Center de Chicago e principal autora do estudo e Mónica Carvalho, estavam realizando um estudo de campo nos Andes colombianos.

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Durante o estudo, elas avistaram um fóssil que lhes chamou a atenção. Em um comunicado de imprensa, Herrera relembra: “Ela olhou para mim e disse: ‘Fabiany, uma uva!’ E então eu olhei para ele, fiquei tipo, ‘Oh meu Deus’. Foi muito emocionante”.

Com 60 milhões de anos, o fóssil chama atenção por duas razões – um dos fósseis de semente de uva mais antigos do mundo e o primeiro fóssil de uva da América do Sul. O fóssil foi chamado de Lithouva susmanii, (do latim, uva de pedra de Susma), em homenagem a Arthur T. Susman, que foi defensor da paleobotânica sul-americana.

“Essa nova espécie também é importante porque apoia uma origem sul-americana do grupo em que a videira comum Vitis evoluiu”, diz o coautor Gregory Stull, do Museu Nacional de História Natural.

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A descoberta ajudará a entender melhor sobre a dispersão da espécie após a extinção dos dinossauros, há dezenas de milhões de anos.

A pesquisadora com o fóssil. A extinção dos dinossauros ajudou as uvas a se espalharem. Imagem: Fabiany Herrera.

“Estas são as uvas mais antigas já encontradas nesta parte do mundo, e são alguns milhões de anos mais jovens do que as mais antigas já encontradas do outro lado do planeta”, diz Herrera. “Essa descoberta é importante porque mostra que, após a extinção dos dinossauros, as uvas realmente começaram a se espalhar pelo mundo.”

Por ter um tecido muito mole, fósseis de frutas são muito raros. Assim, fósseis de sementes são mais facilmente encontrados. Em relação às uvas, os registros fósseis iniciam-se há 66 milhões de anos na Índia, e não são tão raros assim a partir desse ponto, que não por acaso é justamente o período em que ocorreu a enorme extinção em massa desencadeada pela queda de um asteroide.

“Sempre pensamos nos animais, nos dinossauros, porque eles eram as maiores coisas a serem afetadas, mas o evento de extinção teve um impacto enorme nas plantas também”, diz Herrera. “A floresta se recompôs, de uma forma que mudou a composição das plantas.”

“Animais de grande porte, como os dinossauros, são conhecidos por alterar seus ecossistemas circundantes. Pensamos que, se houvesse grandes dinossauros vagando pela floresta, eles provavelmente estavam derrubando árvores, efetivamente mantendo as florestas mais abertas do que são hoje”, diz Mónica Carvalho, coautora do artigo e curadora assistente do Museu de Paleontologia da Universidade de Michigan

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Assim, a extinção dos gigantes dinossauros herbívoros (sim, geralmente os maiores eram herbívoros, e não carnívoros), gerou um aumento na presença das plantas. Dessa maneira, a extinção dos dinossauros ajudou as uvas a se espalharem.

“No registro fóssil, começamos a ver mais plantas que usam cipós para subir em árvores, como uvas, nessa época”, diz Herrera

Imagem: Fabiany Herrera / Pollyanna von Knorring

“As uvas têm um extenso registro fóssil que começa há cerca de 50 milhões de anos, então eu queria descobrir uma na América do Sul, mas era como procurar uma agulha em um palheiro”, diz Herrera. “Procuro a uva mais antiga do hemisfério ocidental desde que era estudante de graduação.”

Além da diminuição do consumo das videiras inteiras pelos enormes dinossauros, as uvas podem ter se proliferado melhor pela presença de aves e pequenos mamíferos que se alimentavam das uvas, e não do pé. Assim, quando defecavam as sementes, ajudavam na propagação da planta.

“O registo fóssil diz-nos que as uvas são uma ordem muito resiliente. É um grupo que sofreu muita extinção na região da América Central e do Sul, mas também conseguiu se adaptar e sobreviver em outras partes do mundo”, diz Herrera no comunicado.

O estudo, além de explicar um pouco sobre como a uva se espalhou, pode ajudar a desmistificar florestas inteiras.

“Mas a outra coisa que eu gosto nesses fósseis é que essas pequenas e humildes sementes podem nos dizer muito sobre a evolução da floresta”, explica Herrera.