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O Saara não é, definitivamente, apenas um deserto. Ele é o maior deserto quente do mundo e um tesouro paleontológico, tendo em vista as frequentes e diversas descobertas de espécies que viveram há muito tempo no imenso espaço em que o deserto está localizado, inclusive dinossauros.

Além disso, o Saara desempenha um papel crucial para o planeta, uma vez que as mais de 400 toneladas de poeira que são produzidas por ano atuam no clima e na biologia da Terra, configurando-se como um poderoso fertilizante.

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Nesse contexto, uma nova descoberta corrobora para a relevância do Saara, ainda que em tempos remotos: arte rupestre de 4.000 anos retratando barcos e gado foi desenterrada no Sudão e revela a possibilidade do deserto ter sido, um dia, uma pastagem verde.

Arte rupestre desenterrada revela um Saara verde

No vasto Saara, antigas pinturas rupestres retratam cenas surpreendentes de barcos navegando e rebanhos de gado pastando. Essas imagens fornecem uma janela fascinante para um tempo distante, quando essa área hoje árida era verde e fértil, antes que as mudanças climáticas se transformassem significativamente em milhares de milhares de vezes.

Recentemente, arqueólogos descobriram essas obras de arte em 16 novos sítios rochosos localizados no meio do Deserto Oriental, também conhecido como Atbai. Este deserto, uma extensão arenosa e desolada, faz parte do Saara e se espalha pelo leste do Sudão. As descobertas foram descritas em detalhes em um estudo publicado no The Journal of Egyptian.

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Por que o achado impressiona

A descoberta é particularmente peculiar por duas razões principais. Em primeiro lugar, os sítios destruídos estão situados a mais de 97 quilômetros de distância do corpo de água mais próximo, o Lago Núbia, o que é intrigante considerando a presença de barcos nas gravuras.

Em segundo lugar, a paisagem árida e inóspita da região não é adequada para a criação de gado, especialmente os grandes bovinos que aparecem nas pinturas rupestres. Isso sugere que, em tempos antigos, o clima e o ambiente desta área eram drásticos.

Essas descobertas desafiam a percepção moderna do Saara como um deserto eternamente seco e estéril. Elas indicam que, em um passado remoto, essa região era habitada por pessoas que dependiam de recursos abundantes, como água e pastagens, que hoje parecem inconcebíveis.

Julien Cooper, egiptólogo, nubiólogo, arqueólogo da Universidade Macquarie em Sydney e autor do estudo diz que “A arte rupestre do gado é muito significativa, já que o gado não pode mais viver neste deserto hiperárido […] Isso nos diz que as pessoas que fizeram a arte tinham uma ligação estreita com o gado”.

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Paisagem hospitaleira

Imagem: Projeto de Pesquisa Atbai

Os pesquisadores acreditam que o tema das obras de arte, especialmente um desenho singular de uma vaca sendo conduzido por um pastor, oferece evidências claras de que essa paisagem árida já foi uma área mais hospitaleira.

“Esta é uma das melhores evidências para estabelecer as alterações climáticas na região, um período que os cientistas chamam de ‘período úmido africano’ […] Neste período anterior a 5.000 anos atrás, o Saara era muito mais úmido e os pastores de gado vagavam pelos desertos em busca de pastagens. Hoje, apenas animais mais resistentes, como camelos e cabras, podem sobreviver neste deserto”, afirma Cooper.

“Monção africana”

Os arqueólogos analisaram a arte rupestre indicando que ela precedeu um importante evento climático conhecido como “monção africana”, que transformou a paisagem na região desértica atual do Saara. Isso obrigou as comunidades locais a se deslocarem para áreas mais férteis ao longo do rio Nilo, conforme observado no estudo.

Por volta de 3.000 aC, o ambiente no deserto se tornou árido para a criação sustentável de gado, como explicou Cooper. Esse período marcou uma mudança significativa na história da região: enquanto alguns pastores adaptaram suas práticas, trocando o gado por animais mais resistentes, como cabras, outros optaram por migrar para o vale do Nilo.

Essa migração desempenhou um papel importante na formação dos primeiros estados urbanos no Egito e na Núbia.