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O campo magnético desempenha um papel crucial na proteção da Terra contra as partículas carregadas do vento solar, uma corrente de partículas carregadas emitidas pelo Sol. Sem esse campo magnético, essas partículas poderiam danificar a atmosfera da Terra, tornando-a mais suscetível à radiação solar e, potencialmente, comprometendo a vida como a conhecemos.

No entanto, há aproximadamente 591 milhões de anos, a Terra enfrentou um momento crítico quase beirando o colapso. Um estudo recente sugere que esse período de quase catástrofe pode ter sido o catalisador para um surto significativo de evolução. O evento turbulento possivelmente desencadeou uma explosão de diversificação da vida, pavimentando o caminho para o surgimento de formas de vida mais complexas e diversas que posteriormente dominaram o planeta.

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Surgimento dos primeiros organismos multicelulares

Recentemente divulgado na revista Communications Earth & Environment, uma pesquisa revelou que um enfraquecimento substancial e prolongado do campo magnético terrestre, estendendo-se ao longo de 26 milhões de anos, coincidiu com um período crucial da história da Terra conhecido como Ediacarano.

Nesse intervalo, caracterizado por uma significativa presença de oxigênio na atmosfera e nos oceanos terrestres, surgiram do mar os primeiros organismos multicelulares que dependiam do oxigênio para sua sobrevivência, marcando um marco importante na evolução da vida no planeta.

Contudo, as criaturas que surgiram durante o período Ediacarano eram consideravelmente distintas das formas de vida contemporâneas, apresentando estruturas que se assemelhavam a discos e massas disformes – algumas das quais alcançavam dimensões superiores a um metro.

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Entre essas formas intrigantes, encontravam-se organismos como o Dickinsonia, com sua aparência bolhosa, que são considerados os primeiros animais conhecidos a habitar o planeta terrestre.

Ação da radiação solar

Os cientistas formulam a teoria de que, cerca de 600 milhões de anos atrás, na ausência da proteção oferecida pelo campo magnético, a radiação solar conseguiu penetrar a atmosfera terrestre, ocasionando a dispersão do hidrogênio e de outros gases mais leves.

Esse processo resultou na presença predominante de átomos de oxigênio dispersos na atmosfera, tornando-os disponíveis para os organismos em desenvolvimento.

“Se nossas suposições estiverem corretas, este evento representa um marco significativo na trajetória evolutiva”, compartilhou John Tarduno, geofísico da Universidade de Rochester e autor principal do estudo.

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Núcleo da Terra líquido

Uma investigação do feldspato no sul do Brasil revelou que, há aproximadamente 591 milhões de anos, o campo magnético terrestre apresentava uma intensidade cerca de 30 vezes menor do que a observada atualmente. Porém, amostras de rochas provenientes da África do Sul, com idade estimada em dois bilhões de anos, indicam que, nesse período remoto, o campo magnético possuía uma força comparável à que conhecemos nos dias de hoje.

Naquele período, o núcleo terrestre era predominantemente líquido, ao invés de sólido. Esse núcleo interno em estado líquido estava em constante movimento, liberando calor para o manto mais frio, o que ocasionava o deslocamento do ferro fundido em torno do núcleo e possibilitava a geração do campo magnético terrestre.

Entretanto, durante o Ediacarano, essa diferença de temperatura foi diminuindo gradualmente, resultando em uma redução na agitação do núcleo e, por conseguinte, na diminuição da intensidade do campo magnético.

Uma impressão fóssil de Dickinsonia, um dos primeiros animais conhecidos, encontrado na atual Austrália. Imagem: Shuhai Xiao, Virginia Tech

“Quando chegamos ao período Ediacarano, o campo magnético estava à beira do colapso”, explica Tarduno em uma entrevista com Katie Hunt, da CNN. “Estava prestes a entrar em colapso completamente. Felizmente para nós, a temperatura do núcleo diminuiu o suficiente para iniciar o processo de fortalecimento do campo magnético pela geração de um núcleo interno sólido.”

David Dunlop, um físico da Universidade de Toronto não associado ao estudo, compartilhou com Dino Grandoni, do Washington Post, que embora mais investigações sejam necessárias para corroborar as descobertas recentes, as análises realizadas foram conduzidas com extrema precisão e rigor.