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Quando falamos em sociedades antigas o mais comum é as pessoas pensarem nos grandes impérios que existiram na história mundial. Dificilmente paramos para pensar em outras civilizações até mesmo porque em várias delas até mesmo dentro do campo acadêmico sabe-se muito pouco sobre sua história. E quando estuda-se essas primeiras cidades nas quais a nossa espécie se organizou, fatos curiosos são revelados.

É o que surgiu na análise de um grande sítio arqueológico da Estepe Pôntica, uma região que abrange hoje a Ucrânia, a Moldávia e a Romênia, que foi lar de uma antiga civilização chamada de Trypillia. Ela surgiu entre 6,2 e 7 mil anos e cresceu rapidamente formando assentamentos neolíticos que cobriam áreas de mais de 320 hectares. Estima-se que cada assentamento era capaz de abrigar 15 mil habitantes.

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Meses atrás, pesquisadores da Universidade de Kiel que fica na Alemanha realizaram um estudo que descobriu que na região havia um sistema alimentar altamente avançado capaz de sustentar a antiga civilização de Trypillia. E no final de fevereiro um novo grupo de cientistas publicou na revista Antiquity uma análise que indica que esses mega-sítios tinham uma hierarquia completamente igualitária. Isso contraria o senso comum de que essas primeiras civilizações teriam um nível de desigualdade mais exacerbado.

Porém existe uma característica ainda mais curiosa sobre a Trypillia que é como essa sociedade que aparentava estar no seu auge simplesmente foi abandonada por volta dos 5,6 mil anos atrás. Na tentativa de prover uma resposta, os autores usaram coeficientes Gini para determinar o nível de desigualdade das habitações daquela civilização.

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Também conhecido como índice de Gini, esse é um indicador que mensura a distribuição de renda de um determinado território e assim possibilita determinar o nível de desigualdade social e a concentração de renda do local. Os autores analisaram a variação do tamanho dos pisos de quase 7 mil casas distribuídas em 38 diferentes sítios de Trypillia. Como descrevem no artigo: 

“Supondo que a variabilidade no tamanho do piso das casas reflita diferenças na riqueza das famílias, podemos discernir uma diminuição na desigualdade social nas comunidades de Trypillia até pelo menos 3800 a.C. A arquitetura das casas (ou seja, o plano e a construção do piso) mostra um alto grau de padronização, assim como o mobiliário das casas e as atividades econômicas detectáveis dentro delas.”

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Maquete de um vilarejo de Trypillia. Imagem: Wikimedia Commons

O estudo segue com uma análise do design de construção desses sítios onde os pesquisadores notaram a presença de layouts arredondados ou oval. Isso garantiria um acesso igualitário de todos os elementos estruturais e a infraestrutura das acomodações.  Outro detalhe é a presença também de casas de assembléia multifuncionais que se localizavam nos espaços públicos  dos sítios. Isso leva a crer que toda a comunidade daquela região participava das decisões políticas.

Os autores adicionam que “O desenvolvimento aqui descrito sugere que uma ideologia igualitária e mecanismos eficazes para evitar a desigualdade social devem ter existido dentro das comunidades de Trypillia. Isso implica mecanismos intra-assentamento para reconciliar interesses e redistribuir excedentes que podem ter sido estabelecidos coletivamente.”

A ideia de uma sociedade igualitária pode ser o fator que motivou os povoados daquele período formarem comunidades tão grandes como se sabe hoje desses mega-sítidos. Contudo, após algumas centenas de anos o arranjo especial de Trypillia sofreu mudanças que os autores tomam como um indicativo para o surgimento de uma estrutura social hierárquica que trouxe a desigualdade para dentro daquela comunidade. A partir desse ponto, comunidades menores passaram a surgir nas regiões mais interiores que circundavam os sítios.

“O declínio dos grandes assentamentos de Trypillia e a formação de comunidades menores nas regiões circundantes começam justamente quando a desigualdade social começa a aumentar novamente”, disseram os autores na conclusão do artigo.